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Relato de Parto Humanizado em Hospital

Relato de Parto Humanizado em Hospital

by Holística Realista setembro 11, 2015

Me preparei para o parto desde antes da gravidez. Já assistia a programas tipo “One Born Every Minute” e sabia que para ter um parto normal sem traumas aqui no Brasil, teria que ir contra o sistema e buscar uma equipe obstétrica humanizada para não cair na cesariana, a qual eu tinha tanto medo.

Tinha medo do parto também. Por isso tanta preparação. Quando via filmes (todos estrangeiros, pois nas novelas aqui no Brasil todo mundo “precisou” fazer cesária), e aparecia o bebê saindo ou coroando eu fechava o olho, tinha aflição, achava tenso mesmo.
Mas tinha menos medo do parto normal que de abrirem minha barriga com um bisturi, cortando tanto tecido, cortando meu útero, pontos internos, pontos externos, cicatrizes, etc – NÃO.

Quando engravidei, minha GO (que depois de 8 semanas sumiu do mapa e depois reapareceu para dizer que não iria poder me acompanhar, fiquei órfã) já me passou filmes para assistir e livros para ler para me preparar. E mesmo no comecinho da gestação, lá fui eu atrás. São eles:
Nascer Sorrindo (Leboyer)
O Renascimento do Parto
Birth As We Know It

Uma vez que a caixinha de Pandora abre não tem mais volta, muitas outras fontes de informação se abrem e assim fui até o parto me enchendo de informações, seguindo grupos nas mídias sociais, fiz curso de preparação para o parto, ouvia palestras, etc etc!

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O curso de preparação para o parto foi bacana porque preparou muito bem meu marido também. Ele brincava que queria ser meu “doulo”. E de certa forma em grande parte foi mesmo. Ficamos meses indo atrás de obstetras, e além de achar os humanizados (farei um post exclusivamente nesse tema passando minha listinha de 1 milhão de dólares), o que mais pegou foi o orçamento…! Um tema à parte!

Uma vez feliz com a equipe que fechei, além das consultas de pré-natal com a Ginecologista Obstetra (GO), tive encontros com a Obstetriz (Parteira) e a Doula, e combinamos de nos comunicarmos através de um grupo no Whatsapp sobre qualquer dúvida ou movimentação aqui do meu lado.
Essa era a equipe. Além do maridão, o “doulo”!

Dica: nunca revele ao público geral sua DPP (data provável de parto). Isso só aumenta a ansiedade dos familiares e amigos próximo da hora, aquela hora que você já está ansiosa o suficiente e não precisa de mensagens e ligações constantes de “já nasceu?!” ou “mas não vai passar da hora?” e absurdos como “tem que tirar senão vai engolir o próprio cocô (mecônio)” e daí por diante.
A DPP é o dia que conclui 40 semanas da data da sua última menstruação. Portanto é um pouco vaga, pois considera uma média de fecundação que não pode de fato ser prevista. O meu ciclo menstrual por exemplo era mais curto, não chegava a 28 dias, então seria estranho se a minha gestação chegasse a 42 semanas – apesar de a grande maioria das gestações normais (que não foram interrompidas por uma cesariana sem trabalho de parto) passar das 40 semanas.

Minha DPP era 02/Julho, mas quando perguntavam eu dizia que era “meio de Julho”. Assim ninguém atazanou perto da data e estávamos tranquilos na reta final. É comum dizerem (por pura ansiedade) que a sua “barriga está baixa” e que “acho que vem antes da hora”. Não dê ouvidos. Eu sempre respondia que ainda faltava muito tempo e que era só impressão. E mesmo entre nós, considerava a data de 42 semanas (“meio de Julho”) pois se viesse antes era um bônus. Essa dica valeu ouro!

Como mencionei em alguns outros posts sobre minha carreira e maternidade, meu trabalho já tinha dado o que tinha que dar e eu ansiosa pelo dia da licença chegar. Quando ela finalmente chegou, foi só alegria. Tive 6 semanas de lazer em casa, com o barrigão que honestamente, se não tivesse saído de licença, imaginava com pena todos os dias as mulheres que trabalham até um dia antes do bebê nascer.

O desconforto é imenso. Sempre fui rápida e produtiva em fazer as coisas. Sempre adorei ficar em casa e além do ócio, adorava organizar as coisas, a casa, e fazia isso com muita agilidade. Vislumbrava esse período de licença antes da bebê nascer como extremamente produtivo, onde iria organizar TODA a minha vida de forma que quando ela nascesse, não teria que me preocupar com nada.
Mas o que percebi é que tive que desenvolver paciência comigo mesma. Fazia tudo BEM DEVAGAR. Tinha que parar para descansar. Para ir daqui até a cozinha pegar um copo d’água demorava uma eternidade. Para ir até a caixa do correio pegar as correspondências, demorava. Não conseguia ficar sentada muito tempo que inchava as pernas e os pés, além de atacar a hemorróida, que havia sido controlada durante toda a gestação.
Como tive 6 semanas em vez de um mês, posso dizer que ao final, praticamente terminei tudo que queria terminar em casa. Mas não sobrou muito tempo para simplesmente fazer nada.

Com 39 semanas e meia comecei a reconhecer os pródumos, ou contrações de treinamento (Braxton Hicks) com mais intensidade.
Até que uma noite elas ficaram mais ritmadas. Vinham e iam num intervalo parecido.
Estava assistindo TV com meu marido numa sexta-feira à noite e percebia que não eram aquelas que vinham de vez em quando.
A sensação que se tem com essas contrações de treinamento é que a barriga fica dura, é um momento que você não consegue se mexer direito até passar, e sente uma dor tipo cólica na região baixa da barriga.
Elas acontecem durante a gestação bem antes do nono mês (comigo comecei a sentir no 4o. mês). Mas quando começam a ficar ritmadas e se repetir muito próximas já pode ser um início de trabalho de parto.

Minha GO havia me orientado para tomar um chá de camomila BEM FORTE, porque se fosse alarme falso você dorme e passa. Se for real elas resistem e continuam.
E assim eu fiz.

No sábado, dia seguinte, tínhamos um curso de Cuidados com o Bebê, da Drika Cerqueira, na Casa Moara aqui em São Paulo. A mesma que ministrou o curso de Preparação para o Parto.
Senti um pouco das contrações até ir dormir. De manhã já não sentia mais, mas decidimos não ir ao curso. Ficar sentada o dia todo, inchando as pernas, seria muito desconfortável e não me sentia segura.

Passei o dia bem, mas à noite (dizem que o anoitecer estimula o trabalho de parto por aumentar o nível de ocitocina no corpo), elas voltaram.
De novo o chá de camomila e cama.
Dormi, acordei à noite como de costume para ir no banheiro, mas estava ok.
De manhã, na próxima ida ao banheiro das 5hrs da manhã senti elas de novo. E aí continuaram e não pararam mais.

Começamos a acompanhar e realmente elas persistiam. Começamos a marcar os intervalos num aplicativo (chamado Birth Control, mas tem vários na App Store), estavam indo e vindo num espaço de 10 minutos em média, e duravam mais ou menos um minuto cada.
Demos o alerta no grupo do Whatsapp, e continuamos. E assim foi indo. 7, 8, 9, 10 da manhã. Meu marido me segurando a mão, fazendo café da manhã, comprando pão fresco na padaria e voltando voando pra estar aqui na próxima contração, massageando minha lombar quando elas vinham – as “ondas”, como ensinavam que a gente devia encarar as contrações.
E realmente eram como ondas. Como quando você está no mar e uma onda vem, você tem que se envolver nela, se entregar. Não adianta querer ficar parada no lugar como se ela não estivesse passando através de você.
Era um lindo domingo de sol, a cidade estava calma, estávamos só nós dois, o dia perfeito para curtir um trabalho de parto.

10:30hrs, minha mãe liga no FaceTime. Não podia quebrar o sigilo. Dei um perdido. Disse que estava saindo e que depois ligava pra ela. Se ela me visse na câmera já ia perceber. Atendi no áudio e falei rapidinho com ela.
Almoçamos, enquanto eu “segurava a onda” literalmente no sofá, meu “doulo” fazia almoço, corria lá de tempos em tempos massagear minha lombar nas contrações ou eu me concentrava bastante e atravessava sozinha, com mantras (entoava a deusa Durga com o mantra “Om Dum Durga-ye Namaha” e a diferença entre uma contração com mantra e sem mantra era realmente impressionante), respirações profundas aprendidas na Yoga visualizando um tubo de luz verde do topo da minha cabeça passando pelo eixo central do meu corpo até a vagina, visualizando meu corpo se abrindo, dilatando, minha bacia se abrindo para o meu bebê descer. Usei também a técnica de EFT, onde você dá tapinhas em meridianos da cabeça que te libertam de emoções fortes e pode ser usado para dor também, me ajudou muito.
E fomos indo. As contrações começaram a ficar mais intensas, um pouco mais próximas, de 7 em 7 minutos, depois começaram a espaçar mais de novo. A equipe achando que ia longe, me orientando para descansar, comer, dormir, e assim eu ia fazendo. Entre uma contração e outra, um cochilo, um lanche, um abraço, concentração, relax.
Mas lá pelas 14hrs eu já estava ficando impaciente e queria a equipe aqui. Ficava chamando no Whatsapp entre cada contração. Já estava ficando difícil de administrar, queria as profissionais. Elas teriam coisas na manga pra dor. Venham! “Estamos nos organizando pra ir!” Elas diziam. A Obstetriz e a Doula. Obstetra só acompanhando e dando coordenadas. E nada delas virem. Estavam me enrolando. Acharam que estava no começo ainda. Pediam para eu avisar quando elas estivessem espaçadas em 6 minutos. Eu falava pra elas virem logo!

Até que lá pelas 15hrs a Doula chegou, eu no chuveiro com a bola, cadeira tudo que tem direito. Contrações intensas, muita concentração pra atravessar. Queria ajuda. Ela me massageava com um óleo tão cheiroso que me marcou (ela esqueceu esse olinho lá comigo e não devolvi mais rs).Até que gritei que queria fazer cocô. Aí ela assustou e avisou todo mundo pra agilizar. O bebê tinha descido, só podia ser, tínhamos que ir pra maternidade!
Moro a 1,5km da Maternidade do São Luiz onde iríamos ter o parto. A Obstetriz estava a caminho mas decidimos nos encontrar por lá. Queria estar segura onde ela ia nascer, já estava azedando.
A jornada de carro foi rápida mas intensa. Tive que me concentrar muito nas contrações que tive lá dentro. Fiquei de quatro apoios no banco de trás, abraçava o descanso de cabeça e focava no mantra. Não ia ter massagem nem água quente, era só eu e a Durga.
Chegamos na maternidade. Eu de pijama, roupão, cabelo de louca que tinha acordado, amarrado, ido pro chuveiro, etc. Aquela recepção bonitona com pessoas civilizadas arrumadas e eu de Havaianas por cima da meia e cara de louca. Partolândia total. Quero ir pra um quarto. Agiliza.
Entrada e exame de admissão. Clima hospitalar. Você ali na partolândia e a enfermeira perguntando o teu CEP. Foca na Durga. Não é hora de bater em ninguém. Você precisa dessas pessoas. Apenas responda o seu CEP.

Obstetra também a caminho. Deita na maca pra examinar. Cardio-toc, exame de toque. Batimentos ok, dilatação 8cm!!! Quase lá! Fiquei empolgada!

Meu marido me falava que via o trabalho de parto como uma maratona. Quando ele correu a maratona de Amsterdã se preparou por muitos meses. Uma maratona é correr 42km em torno de 4,5 horas. É um trabalho de resistência física e mental. E mental porque a cabeça quer desistir, e o corpo, cansado, apóia a decisão. É a cabeça que tem que controlar o físico senão você se entrega e desiste.

Ele dizia que durante a maratona tem um momento importante conhecido pelos maratonistas chamado “The Wall”, “O Muro”. Quando você “hit the wall”, “chega no muro” você não quer mais continuar, não pode mais. Quer desistir de verdade. Seu corpo não aguenta mais, a cabeça sucumbe, você quer pôr um fim naquilo que está te fazendo sofrer. Ninguém quer sofrer (como diz o filósofo Pondé). E é isso que faz com que as mulheres prefiram uma cirurgia invasiva cesariana do que parir de forma fisiológica. A promessa de “não sofrer”. Mas o que é esse “sofrimento” senão parte do renascer? De transcender? De superar seus limites? De sintetizar força que você não sabia que tinha?

É por isso que as pessoas correm maratonas. E é por isso que eu quis parir.
Quando você “hit the wall”, precisa de apoio para escalar o muro e continuar em frente. Nas maratonas, eles usam o nome bem grande na camiseta para que quem esteja na torcida possa gritar o seu nome te dando um gás de adrenalina e motivação. Meu marido não entendia porque o colega insistiu que ele usasse o nome na camiseta. Mas em Amsterdã, quando tinha chegado no seu muro, um menininho de uns 7 anos gritou “GO, ALEX!!!” e dali ele tirou forças de dentro de si, que não sabia que tinha e foi até o final, mamilos sangrando, unhas do dedinho do pé praticamente em carne viva e pernas pra lá de bambas.
Meus 8cm foram meu grito de incentivo. Estava orgulhosa de mim, de como administrei as contrações, como minha bebê estava descendo e chegado até ali, sem qualquer ajuda farmacológica.

Fomos para o delivery room, a sala de parto especial do São Luiz para parto humanizado, que eu queria tanto que estivesse disponível. Estavam higienizando a sala, eu fui levada num quartinho intermediário com uma maca e um banheiro pequeno mas com chuveiro e… Uma bola de pilates!! Que estava me ajudando tanto em casa na dor lombar que sentia durante as contrações. (A bola de pilates é perfeita também depois que o bebê nasce para embalar e acalmar). Era ali mesmo que eu ia ficar enquanto esperava. Uma enfermeira ficou ali comigo até liberar a minha super sala de parto. Eu nem percebia mais nada. Só lembro de no caminho pra sala de parto atravessar uma caravana de gente com camisetas personalizadas que esperavam para ver o “Noah”. Era uma festa, ali, no meio da onde a gente tem que parir. Lembro de passar por esse corredor “espantando” essa turma como se espanta mosca de bolo, fazia assim de um lado pro outro com a mão pra abrirem caminho se não quisessem apanhar, rs. (Depois a mãe do Noah ficou no quarto ao lado do meu pra completar. Visitas em massa até 23hrs todo dia e alta produção de lembrancinhas e afins – coisa que não tive, fui ao hospital pra parir minha filha, não pra fazer festinha à lá buffet infantil, e nem tampouco queria a torcida do Corinthians ali 5 minutos depois de parir, portanto não incentivei com qualquer “lembrancinha”, nem sinalizei com placa na porta.)

 

quarto do Noah, nosso vizinho

Finalmente na sala de parto, a equipe foi chegando aos poucos pois tinham ido aparamentar. Enquanto isso as faxineiras terminavam de limpar a sala, cheguei lá, tinha luz acesa, TV no Faustão ou algum outro programa inútil de domingo na TV aberta, e radinho ligado ao mesmo tempo. Entrei gritando pra apagar tudo, e elas foram desligando. Aqueles momentos sozinha tendo que lidar com essas coisas mundanas externas foram chatas, tive que me concentrar. Meu marido chegou depois também e aí já estava tudo no clima. Ele dizia depois que entrou lá e parecia um quarto de motel, luzinhas de cromoterapia no teto, temperatura amena, hidromassagem…. A Doula foi encher a banheira, enquanto isso eu na bola e pedindo água. O relógio marcava 17:30hrs.
Chegou a obstetra. Fomos pra banheira. Senta, vira, ali o bicho começou a pegar… Devia estar com dilatação total (10cm) já ou quase, então passei toda a fase de transição nesse trâmite de internação. Minha lombar doía demais, não aguentava ficar de barriga pra cima. Quando vinham as contrações eu fechava as pernas e me contorcia de um lado pro outro, não ia dar certo.

 

Fui pra banqueta, dentro da banheira. Meu marido de cueca ali dentro comigo. Eu agarrava ele, mordia, batia. Sem chance a banqueta. Lombar doía mais ainda e a hemorróida também.
Quatro apoios. Ahhhhh agora sim. Lombar aliviou muito e ficava exposta para massagens. Contrações muito próximas umas das outras, e ali sim, dor. Estávamos no expulsivo. Ali sim eu xinguei todo mundo que me botou nessa fria. Xinguei a Durga, a equipe, “azíndia”, e entendi ali, quem queria cesária. Aquilo era difícil. De verdade. Não era pra qualquer um. Ali eu cheguei no muro. Mas agora estava tão próxima que não tinha mais volta.

Queria acabar de uma vez com aquilo. Mas não estava fácil. Não acreditava que era aquilo mesmo. Gritava e xingava. Como pode parir ser assim?! Quem inventou isso, meu Deus?!? Era impossível!!! Mas aí pensava: toda a humanidade antes de a cesariana estar disponível (pensava que era há uns 70 anos atrás? Sei lá…) nasceram assim. Sem anestesia, sem cesariana dopada. Então se TODAS aquelas mulheres pariram: as miúdas, as grandes, as fortes, as fracas, as sonsas, de todas as etnias e lugares do mundo – por que não eu?!

“Você está indo super bem!”, dizia calmamente a torcida: equipe e marido que aguentava eu morder ele.
Círculo de fogo. A pressão que fazia a cabeça do bebê na uretra e reto eram difíceis. Não aguentava mais. Queria que me dissessem que ela estava saindo, que estava acabando, perguntava o que estava acontecendo! A Doula abanava, me dava água. O marido massageava a lombar e administrava meus ataques físicos a ele, eu batia, mordia, gritava, fazia força.

 

Mas ela estava saindo sim!! De repente a cabeça veio!! Ficou metade pra fora, metade pra dentro! Não estava acreditando. Era assim mesmo, produção?!? Muito sofrimento. Não podia ser! Odeio fazer essa analogia, mas é como fazer o maior cocô da sua vida. Dói, dói a barriga, aí dói pra sair a primeira, depois vai saindo o resto. E o engraçado era que a sensação é que vai sair “por trás” mesmo, pois é muita pressão na região. E doía a uretra também pois estava de quatro apoios e fazia pressão na frente também. Tenho uma amiga que tinha parido dias antes que também disse que sentia isso. Era o famoso “círculo de fogo”: tudo ali arde, queima, pressiona. Mas ao mesmo tempo é tudo do jeito que tem que ser, fisiológico, o corpo sabe dar conta, como pra fazer o cocô. E lembrava que a dilatação era no colo do útero, lááá dentro. Aqui era ela passar por músculos totalmente elásticos que esticam justamente para esse fim, e que depois voltam pro lugar sem traumas, se eu relaxasse e permitisse que a natureza fizesse sua parte.

E a equipe ali apoiando, dizendo pra na próxima contração fazer bastante força empurrando pra fora força no abdômen e relaxando o períneo! Que era assim mesmo! Como eu havia aprendido nos treinos do Epi-No! Na Yoga!

Eu via uma pessoa a mais ali, era a Pediatra. Daqui a pouco, com a gritaria, apareceu outra. Eu perguntava “quem é você, o que você está fazendo aqui?!?” E elas: “não, nada, não sou ninguém”. Meu marido conta que mais ou menos essa hora tinha entrado uma enfermeira com um bisturi na mão. Preparada para a episiotomia. O famoso “pique”. Meu maior medo. Graças à Deus não vi isso. Disse que enxotaram ela da sala, abanando como meu abano pra turminha do Noah.

Lembro de pensar na hora: entendo porque aceitam a episiotomia. Nessa hora você só quer que SAIA DE UMA VEZ!!!!!!!!
E a anestesia, você caro leitor pode estar se perguntando?

Bom, meu plano era zero agulhas, zero cortes, zero pontos. Tenho medo de tudo isso. E até então tinha conseguido. Só tinha tido um exame de toque, mais nada. Respeito total. Estava feliz com a assistência. A ajuda estava ali se precisasse. Mas não pretendia precisar. E naquela altura do campeonato, a cabeça já pra fora, quem aguentou até aí aguenta até o fim! Antes disso, se tivesse cogitado, teria que sair da banheira, tomar um catéter na espinha (socorro!), ficar imóvel na cama, não ia mais poder voltar pra banheira ou chuveiro, que estavam me fazendo tão bem. E tudo estava evoluindo lindamente, pra quê intervir?!

Respira! AGGGHHH e saiu a cabeça!! 19:31hrs! 2 horas depois de chegar na maternidade! Na próxima contração ela ia sair por bem ou por mal!!!
Bom, aí na próxima contração pra quem pariu a cabeça, o resto é fácil. Ela saiu! Eu não acreditava!! Veio nadando por baixo do meu corpo e a obstetra (que só pegou ela saindo) dizia “pega ela!” – e eu peguei. Não acreditava! Era tudo, tudo, muita emoção, muito intenso! Ela saiu! Ela estava ali, nos meus braços!! E eu sobrevivi! É possível sim! É possível mesmo!
Que momento indescritível. Meu marido atrás de mim aliviado, chorando, nós olhando ela… E a dor acabou!

Cordão parou de pulsar, meu marido foi cortar. Sensação estranha! Sentir o cordão entre minhas pernas era aflitivo, assim como qualquer coisa que encostasse ali durante o final, tipo o espelhinho da obstetra que boiava na água e eu gritava pra tirar aquilo dali!

 

Hora de sair da banheira. Calafrios, muita adrenalina e calafrios. Euforia. É normal, elas diziam, são os hormônios que você está liberando.

Não conseguia parar de tremer de frio, saindo da banheira, pedi muitos cobertores e me embrulhei no roupão felpudo, e fui pra cama enquanto a Pediatra examinava a bebê, e meu marido do lado acompanhando.

Enquanto isso era hora de dequitar a placenta. Um pouco incômodo mas depois de parir aquilo é fichinha. A placenta saiu, rolou um momento: “você quer a sua placenta?” (equipe índia é assim), e eu: “não, grata”, risos.

Aí a hora da verdade. Examinar o períneo para ver se ia precisar de pontos, e…. PERÍNEO ÍNTEGRO! Nenhuma laceração que precisasse de pontos, maravilha. Meta batida, sem cortes, sem pontos, sem agulhas… Ah, bom, aí veio uma agulhinha. Uma injeção de ocitocina que a GO insistiu para evitar muito sangramento pós-parto pois minha pressão estava um pouco baixa. E a enfermeira veio tirar um sanguinho meu para tipagem. Mais nada, estava liberada.

E a bebê veio pros meus braços com muito carinho! Ficamos ali, pele-à-pele, se curtindo. Ela bastante sonolenta, não quis saber de mamar, só cochilar. Precisou de um oxigênio naquele momento (mais sobre o capítulo amamentação e pediatria em outro post) mas a Pediatra nos deixou ali por pelo menos uma hora, em paz.

Papai (o Doulo), mamãe #divaparideira e Yara (o presente divino!)

 

A equipe (períneo integro #chupabisturi)

 

E assim se fez o meu parto, que eu considerei perfeito, exatamente como desejei!
O que posso concluir para compartilhar com você, fiel leitor(a) que chegou até aqui…(ou que veio direto pra conclusão):

  • Contrações são dores muito mais felizes e administráveis que cólica estomacal, renal, intestinal ou uma intoxicação alimentar feia. Não é sofrimento (pra mim não foi), é parte do processo de abertura do seu corpo para o seu bebê sair, isso é tão dolorido quanto um super alongamento de músculos que você não conhecia, e uma flexão forte de outros músculos
  • O cocktail hormonal que você vai experimentar (se não aceitar nenhuma droga: anestesia, ocitocina sintética – o famoso “sorinho” e afins) é um barato que vale a pena por si só. A sensação de estar “in the zone” (outro termo de maratona ou corrida, quando você está tão concentrado e na onda que o mundo externo pára, você está totalmente entregue ao presente), a força de ir até o fim, e finalmente a euforia que se sente depois de acabar são inigualáveis. Eu fiquei eufórica por pelo menos 12 horas depois do parto. Falava sem parar, dava “high five” até pro operador do elevador do hospital e não parava quieta!
  • O expulsivo pra mim foi o que mais doeu realmente. Mas a preparação durante a gestação treinando o períneo com o Epi-No e massagens foi fundamental para um expulsivo menos traumático e claro, o períneo íntegro, sem laceração ou cortes ou pontos, o que foi realmente uma bênção. Um dia depois do parto não sentir dor no períneo ou vagina (apesar de estar obviamente sensível, não doía), andar normalmente e com liberdade não tem preço!
  • Um bom obstetra irá te dizer que um bom parto é aquele onde ele não faz praticamente nada. Quem pári é a mulher. Ninguém “faz o teu parto”, quem faz é você. Faz teu parto um médico quando você não o faz. Quando precisa de intervenções médicas para salvar a vida do seu bebê ou sua. Aí sim você precisa e deve ter assistência médica competente. E há um lugar muito importante para isso. Minha equipe obstétrica não foi obsoleta porque “não fizeram quase nada”. O sucesso do parto se deu à preparação competente que me deram durante o pré-natal. As informações, o apoio, os esclarecimentos, os treinamentos físicos, o empoderamento. É isso que uma equipe que realiza partos tem 9 meses para fazer, de forma que o parto seja rápido e fácil. Nem sempre tudo vai bem, como tudo na vida, e aí eles estão lá também para trazer o desfecho feliz, que sempre é mamãe e bebê bem e saudáveis.
  • A recuperação do parto normal é excelente, isso realmente não é lenda. Minha bebê precisou ficar internada 10 dias para um tratamento preventivo por conta de uma bactéria intra-uterina (vide post sobre Amamentação), e lá na UTI neo-natal a vasta maioria dos bebês eram prematuros nascidos de cesária. Exceto as mães que tinham parido há um mês ou mais, via as mães descendo do quarto para amamentar totalmente debilitadas, tomando remédio pra dor, algumas carregando soro, sem conseguir sentar ou se mexer direito com o abdômen cheio de pontos, aquele corte ainda cru, todas as sete camadas de tecido que foram cortadas, efeitos colaterais das drogas injetadas para a cirurgia, e eu só como se tivesse realmente corrido uma maratona. As “cadeiras” doíam um pouco, a bacia abre no próprio eixo e sai do eixo normal para o bebê passar. Eu sentia uma sensibilidade no sacro depois de sentar por muito tempo e ao levantar. Passava óleo de arnica conforme instruído pela minha professora de Yoga. Também sentia um pouco de sensibilidade no reto e na uretra, mas nada diferente do final da gestação, onde a pressão do bebê o dia todo na região já deixa pesado. Fora isso, nada de dor na barriga, nada. Sentia as coliquinhas normais do útero se contraindo de volta mas eram muito leves. Estava cansada e tinha que me alimentar bem “depois da maratona”, mas não precisei de remédios para dor, nada. Só uma compressa fria para o períneo e chás de camomila. Então é o famoso “você quer dor antes (algumas HORAS antes do bebê nascer) ou depois (por vários DIAS depois do bebê nascer quando você precisa de disposição para cuidar dele, cicatriz eterna, pontos no útero pra sempre)”?
  • Na hora entendi quem tem medo de parir. Não é pra qualquer um, mas pra mim faria tudo de novo COM CERTEZA (por todos os motivos acima). E lembre-de: toda a humanidade até poucas décadas atrás nasceram de mulheres que pariram assim, a maioria com muito menos assistência do que nós. Então não pode ser um bicho de 7 cabeças. E outra, nada dá tanta gratificação física e comprovação de poder à mulher que parir. Conquistas profissionais, malhar, tudo se torna mundano diante de um milagre que nascemos para performar como mulheres, que homem nenhum jamais conseguirá vivenciar
  • Não conseguiu parir? Não “teve dilatação”, o “bebê era grande”, o “cordão estava enrolado no pescoço”, tem “mais de 35 anos”, “não entrou em trabalho de parto”, a “placenta ficou velha”? Desculpe te revelar, mas você provavelmente caiu no conto de um obstetra preguiçoso cesarista. Nenhum desses fatores são indicações reais de cesariana. Se você também queria cesária, muito bem, todo mundo tá feliz. Se não, convido você, que agora já abriu a caixinha de Pandora a seguir “O Renascimento do Parto” no Facebook, assistir o filme ou pesquisar um pouco mais no site para não se deixar enganar novamente, se assim desejar, claro.
  • O vínculo que se cria de vitória, conquista e “team work” com o bebê são uma herança linda para começar a nossa história juntos.

Faria tudo de novo. Respeito incondicionalmente TODAS as mães, independente da forma de parto, mas pessoalmente acredito sim que toda mulher deve TER O DIREITO (direito esse que muitas vezes lhe é negado por falta de assistência que apóie essa prática) de se transformar em uma #divaparideira através dessa experiência transcendental que é o parto, sendo ele respeitoso e amoroso, como a concepção.

Apóio e recomendo muito!

“Boa hora” à todas as mulheres!

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3 Comments

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  • Audrey

    Que momento lindo, chorei de emoção. Parabéns mamãe e papai, vocês formam um belo time. Oro pra que Deus me dê essa oportunidade e essa força que você teve. Beijo pra vocês 3.

    Responder
    • com desejo e determinação, se Deus quiser, vocês conseguem sim, pois assim Ele nos fez! Mas infelizmente no Brasil, se não se cercar de todos os lados, a faquinha sempre vence! :-/ de qualquer forma é uma experiência única, mas de um único dia de tantos vividos com o seu baby, então foca na jornada! Boa sorte e boa hora, Audrey!!! :-*

  • Ola! Parabéns por esse parto maravilhoso e abençoado! Ri e chorei lendo seu depoimento! Obrigada por compartilhar! Estou gravida de 13 semanas e tudo q eu mais desejo é ter um parto assim, o mais natural possível! Força pra nos mulheres 🙂

    Responder
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